Deixem-me falar-vos sobre perda.

Este post era algo que eu não queria escrever tão cedo. Daqueles que “quanto mais tarde melhor”. Mas preciso falar sobre isso. Ou escrever sobre isso. Porque falar é difícil sem que a voz me embargue.

Perdi, há pouco tempo, o meu padrinho. Não vivemos uma vida onde tivéssemos tido grande contato, por uma diversidade de motivos que hoje já perderam qualquer relevância, de tão irrelevantes que verdadeiramente eram. A sua morte não veio como um choque. Infelizmente, a doença que o levou já se tinha manifestado há algum tempo. Quando partiu, partiu consciente de que tinha feito tudo o que lhe foi possível para sobreviver à doença. Para viver. Porque se ele adorava alguma coisa, era viver. Conheci pouco o meu padrinho. E talvez seja isso que hoje ainda me incomoda. Perdemos o tempo que tivemos para nos conhecermos e, quem sabe, mudarmos o que estava mal. Não o conhecendo bem, poder-se-á perguntar se realmente o perdi. A eterna questão do se se pode perder o que nunca se teve verdadeiramente. Sim, perdi. Perdi a oportunidade, algo que me foi dado uma única vez. Tentei agarrá-la e ela escoou-se-me pela mãos, ainda que me tenha dedicado a colocar pensos rápidos em feridas, na realidade, enormes. Não tinha mais nada. Hoje é tarde e mais impotente não posso estar. Já não vou a tempo de remendar o que estava (e infelizmente continua) mal. Está fora das minhas mãos.

Perdi, depois, um amigo. Daqueles que muito raramente se encontra. Dos que marcam. A passagem dele para o outro lado, essa sim, um choque. Um embate muito doloroso para todos quantos o conheciam. Ainda hoje é muito difícil encontrar palavras para explicar o que se sente. Era um dos seres mais brilhantes que conheci, de bom coração, um amigo que genuinamente se preocupava com todos à sua volta, que amava a sua família de forma arrebatadora e que respeitava cada pessoa com quem se cruzava. Do nada, todos o perdemos. A família, os amigos, os colegas de trabalho, toda uma Região. Num dos momentos profissionais mais dolorosos da minha vida, ele estendeu-me a mão e fez-me saber o que pensava de mim. E dessa candura nunca vou esquecer. Foi totalmente honesto, como lhe era característico. E naquela verdade, porque vinha dele, eu acreditei. Aguentou-me. Fica o vazio da incompreensão. Do porquê. Do ter genuinamente desejado vê-lo vencer na vida, no amor pelo qual tanto lutou, vê-lo operar as mudanças de que o sabia tão capaz. Ele merecia ser muito feliz. Resta-nos a todos as memórias de um homem bom e, a mim, a honra de o poder ter chamado de Camarada. De Amigo.

Há poucos dias perdi um dos meus gatos. Alguns dirão “Que tolice…”. Mas para mim, não. Perdi aquela vida que estava tão presente na minha. Segurei-o nas minhas mãos quando nasceu, com meras horas de vida. Durante 4 anos foi um companheiro fiel e que tão diligentemente devolvia todo o carinho que lhe dava. De súbito, tal como o seu irmão alguns meses antes, perdi-o. Da mesma forma rápida e cruel. Com exatamente a mesma doença. Os meus animais são vidas que acarinho, que valorizo e respeito solenemente. Num momento estavam lá, no momento a seguir não. Todos os dias sinto a falta dos que me deixaram. Eram livres, como pactuámos quando nasceram. Mas a mim cabia-me dar-lhes o melhor que conseguisse. Foi suficiente o que fiz? Nunca vou saber.

Lido com a Morte não falando sobre ela. Porque não a percebo. Porque, como sei que nunca a vou perceber, não perco o meu tempo a teorizar sobre ela, que me esvai de qualquer conhecimento que eu pense que tenha. Deixa-me apenas com o consolo das pequenas coisas que fiz enquanto ela dormia (ou aguardava pacientemente). Sei que, com o meu padrinho, tentei remendar o que estava mal e que falhei redondamente. Sei que, com o meu amigo, lhe disse o quanto o respeitava e o quanto me orgulhava dele. Sei que, com os meus gatos, sinto que lhes faltei à promessa que fiz, de os proteger. Foi suficiente? Quem sabe?…Se há algo certo, é o acrescentar mais parágrafos a este texto, no futuro. Nada mais resta senão continuar a agarrar os dias que nos são cedidos. Porque nada disto é nosso, nem eles. Respirar, Amar, Dar, fazer bem o Bem. Sorrir à chuva, agarrar terra molhada e sentir a relva fresca. Viver. Enquanto me for permitido.

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