Isolation Blues

I have been locked up at home for so many days that I have lost count of them. I think I’m already a quarantine within a quarantine. My head has quarantined itself. At the beginning I was full of the desire to win this with class. I did physical exercise, I made bread, I made cakes (healthy cakes, let it be noted), I took beautiful pictures here at home. I decided so many things in the first days, things that I ended up not doing. I decided I would read as many books as I could. I haven’t even finished one single book yet.

Right now I can’t even see the bike, I have frozen bread that will surely last for three months, I avoid cakes for obvious reasons and I don’t even have the patience to pick up the camera. I even tried to take some selfies, but when I looked at the screen I gave up on the idea. The lack of sunshine that this time has imposed on us has not helped my prune complexion.

This quarantine has been a real test to my sanity. I feel strong on some days and completely lost on others. Living alone has been a challenge. There are times when I cannot distinguish isolation from loneliness. I’ve had particularly difficult days. Sometimes I seem trapped in a whirlwind that had no end. One day I woke up late, looked at the window in front of me and nothing seemed to make sense. I slept in the middle of the afternoon, opened my eyes and so little time had passed. Everything seems so infinite when you are alone.

I know that we are in a truly exceptional situation and that nothing can compare to our so-called normal life. Perhaps the indication that I have some power over all of this is the fact that I know exactly when I am slipping into a depressive state. I let myself go for a while in that state because I had nothing to lift me up. And at this moment, I still don’t. I remain closed up at home, with a business completely on hold and with bills that keep piling up, not knowing if, in the future, I will be able to pay them. This would perhaps be the perfect scenario for a mental breakdown. However, here I am writing and doing my best to share, not to keep this to myself. If it will help, we will see. Maybe tomorrow I’ll wake up feeling down again and delete everything I wrote. Who knows? Every day is a roller coaster. One of those little ones. As the one that once existed at the mall in Lisbon.

For those who live alone, finding survival mechanisms for our mental health is not an easy task. The four cats that accompany me cannot be a solution. At this moment it’s still only me who talks to them. When they start to talk back to me, I’m going to start to seriously worry about what’s going on in my brilliant little head. Living alone is great as long as you have the possibility to be in contact with other people when you want. Even if I lived like in Walden, in the middle of the forest, I would always have the chance to turn back and find company if I wanted to. In this situation, living alone is a prison from which I have to find daily and quite inventive answers to get out of, without being actually able to get out of it.

What, then, is the solution? I still don’t know. I am doing whatever comes my way. I’ve seen movies. I’ve been screaming at the computer screen when I see silly things – which has been quite frequent. This pandemic seems to have brought stupidity with it too. I have been desperate with my cats as they aren’t used to having me home all this time and are completely out of their minds 70% of the time. I really think they’re genuinely fed up with me. I avoid seeing news about the pandemic. I see the essentials. I solve the problems that arise when people call me, which is very good. I feel useful. When I can’t solve them, I’ve done my best not to despair. But hey, as much as I want to, I still can’t live up to everyone’s expectations – and, believe me, some of them are quite debatable.

Mental health is such an asset, but so little appreciated. Maybe we should work on it a little bit more. It is a pity that a pandemic was necessary in order to give it its due value. Mine is here, swinging somewhere between a today that is going well and a tomorrow who knows how it will go.

For me, what I miss most, in the middle of all this, are my parents, my sisters, my family. And that hug. That one. The one I hope to be able to give in the light of a free sun.

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Estou encerrada em casa há tantos dias que já lhes perdi a conta. Acho que já sou uma quarentena dentro de uma quarentena. A minha cabeça quarentenou-se a si própria. No início estava cheia de vontade de vencer isto com classe. Fiz exercício físico, fiz pão, fiz bolos (saudáveis, entenda-se), tirei fotografias lindas aqui em casa. Decidi tanta coisa nos primeiros dias, coisas que acabei por não fazer. Tinha decidido que iria ler o máximo de livros que conseguisse. Ainda não acabei um que fosse.

Neste momento nem posso ver a bicicleta, tenho pão congelado que dá para três meses, evito os bolos pelos motivos óbvios e nem sequer tenho paciência para levantar a máquina fotográfica. Até tentei tirar umas selfies, mas quando olhei para o ecrã desisti da ideia. A falta de sol com que a meteorologia nos tem brindado também não tem ajudado esta cútis de uva passada.

Esta quarentena tem sido um verdadeiro teste à minha sanidade mental. Sinto-me forte nuns dias e completamente perdida noutros. Viver sozinha tem sido um desafio. Há momentos em que não consigo distinguir o isolamento da solidão. Tive dias particularmente difíceis. Parecia presa num remoinho que não tinha fim. Acordava tarde, olhava para a janela à minha frente e nada me parecia fazer sentido. Dormia a meio da tarde, abria os olhos e tinha passado tão pouco tempo. Tudo parece tão infinito quando se está sozinha.

Sei que estamos numa situação verdadeiramente excecional e que em nada se pode comparar aos nossos dias ditos normais. Talvez o indicativo de que tenho algum poder sobre este contexto seja o facto de eu saber exatamente quando estou a resvalar para um estado depresssivo. Deixei-me levar durante algum tempo por esse estado porque não tinha nada que me levantasse. E neste momento, continuo a não ter. Continuo fechada em casa, com um negócio parado e com contas que continuam a aparecer para pagar, sem saber se, no futuro, o vou poder fazer. Será, porventura, o contexto perfeito para ter um mental breakdown. No entanto, estou aqui a escrever e a fazer os possíveis para partilhar, para não guardar isto para mim. Se irá ajudar em algo, havemos de ver. Se calhar amanhã acordo com a neura outra vez e apago tudo. Who knows? Todos os dias são uma montanha russa. Daquelas pequeninas. Como havia no Colombo antigamente.

Para quem vive sozinho, arranjar mecanismos de sobrevivência da nossa saúde mental não é tarefa fácil. Os quatro gatos que me acompanham não podem ser solução. Neste momento ainda sou só eu que falo com eles. Quando eles começarem a responder é que me vou começar a preocupar seriamente com o que se passa na minha brilhante cabecinha. Viver sozinha é ótimo enquanto se tem possibilidade de estar em contato com outras pessoas quando queremos. Mesmo que eu vivesse numa de Walden, no meio da floresta, teria sempre a possibilidade de recorrer a companhia se o quisesse. Nesta situação, viver sozinha é uma prisão da qual tenho que encontrar respostas diárias e bastante inventivas para sair dela sem que dela possa sair.

Qual é, então, a solução? Continuo sem saber. Vou fazendo o que me aparece. Tenho visto filmes. Tenho vociferado com o ecrã do computador quando vejo coisas tolas – o que tem sido bastante frequente. Esta pandemia parece que trouxe a estupidez consigo também. Tenho desesperado com os meus gatos que não estão habituados a ter-me em casa este tempo todo. Acho mesmo que estão genuinamente fartos de mim. Evito ver notícias sobre a pandemia. Vejo o essencial. Resolvo os problemas que me aparecem quando as pessoas me ligam, o que é muito bom. Sinto-me útil. Quando não consigo resolver, tenho feito os possíveis para não desesperar. But hey, por mais que eu queira, ainda não consigo corresponder às expetativas – algumas bastante discutíveis – de toda a gente.

A saúde mental é um bem tão, mas tão pouco apreciado. Se calhar devíamos trabalhar um bocadinho mais nela. Pena que tenha sido necessária uma pandemia para, se calhar, lhe darmos o devido valor. A minha está aqui, a balançar algures entre um hoje que está a correr bem e um amanhã que sabe-se lá como correrá.

Cá por mim, o que mais me faz falta, no meio disto tudo, são os meus pais, as minhas irmãs, a minha família. E aquele abraço. Aquele. Que espera poder ser dado à luz de um sol livre.

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