Pensatório

Tempo

Sou , de três, a irmã do meio. Senti a mão da irmã mais velha a segurar sempre a minha e vi a mais nova nascer com um sentimento protetor de carinho e preocupação, espelho de uma qualquer maturidade pueril que fez um dia com que o meu avô paterno me tivesse dito que eu tinha uma alma de velha num corpo de pequena. As brincadeiras a que me dedicava tinham, na sua grande parte, um qualquer quê de aprendizagem, que bebia com a alegria de quem se satisfaz com o saber das coisas simples. Um galho de árvore que à luz do sol criava sombra era, no meu entusiasmo constante, um mistério a descobrir. De alguma forma que ultrapassava na minha inocência de então, eu sabia que aquele pequeno “brinquedo” me mostrava tempo a passar. Essa passagem dos segundos, dos minutos, das horas, esse tic tac constante dos dias, tranquilizava-me. As minhas irmãs são, em grande parte, a medida pela qual rejo o tempo da minha vida. A Sílvia viveu quatro anos sem mim. Quatro anos. Sempre pensei, de forma igénua e sem maldade, que, caramba, deviam ter sido quatro anos bem solitários sem a minha pessoa para ocupar o tempo dela – a dançar juntas, a brincar e, ocasionalmente, a tirá-la do sério. Eu vivi seis anos sem a Júlia. A Sílvia viveu dez. Quando fomos três tudo se alinhou um pouco mais. O tempo fez ainda mais sentido. Envelhecer com elas tem sido bonito.

Eu adoro ouvir o tic tac dos relógios. Tenho a casa cheia deles. A Júlia diz que dormir na minha casa é impossível. Mas eu gosto do som e não tenho medo do tempo. Ele deu-me tanto. Conto-o nos anos em companhia da família, nos marcos profissionais, nos momentos em amizade. Há quem o ouça e tenha medo. Eu sinto-o como uma inevitabilidade e, por conseguinte, não encontro motivo para ter medo dele. Não me serviria de nada. Gosto de, no silêncio, ouvi-lo passar. Gosto de vê-lo na mudança do meu rosto, das rugas e linhas que me surgem. Gosto de ver os cabelos brancos que hoje, ainda que sejam poucos repartidos entre as três, partilho com as minhas irmãs. Gosto de relógios. Sorrio quando os vejo. Fiz do tempo um amigo que recebo e acarinho a cada lua que se deita e sol que se levanta. Olho para quem diz que não tem tempo e quem não o tem realmente. Não compreendo os primeiros e apertam-me o coração os segundos. O tempo não é igual para todos. E por isso nos é dada a possibilidade de tirar do nosso para dar a quem dele tem necessidade. E, quando assim é, o nosso parece que estica. É o milagre do tempo. De uma flexibilidade infinita que varia consoante o coração de cada um.

Solidão

Já há algum tempo que tomo o pequeno-almoço no mesmo sítio. Sou uma criatura de hábitos. Peço quase sempre a mesma coisa. E sento-me a ler. Sempre sozinha. Hoje, na mesa à minha frente, sentou-se um casal. Nos cerca de cinquenta minutos que ali estiveram trocaram, ao todo, cerca de cinquenta palavras. Agarrados aos telemóveis. Alienados um do outro. Levantei-me. Paguei. Eu, do livro que estava a ler, saí, sentindo-me acompanhada. Eles, ainda que dois continuassem à mesma mesa, permaneceram absolutamente sozinhos.

Cada pessoa que conhecemos está a passar por coisas que nem imaginamos. Sejam gentis. Sempre.

Há dias em que me sento em frente ao ecrã, ponho as mãos no teclado e nada sai. Um completo vácuo. Não é que não tenha ideias ou que seja o eterno cliché da falta de inspiração. É mesmo uma força avassaladora que me pressiona o peito e a cabeça. É um turbilhão de mil pensamentos e reações no qual não tenho mão. Penso, depois, se devo sequer escrever. Há muito, muito tempo, eu tinha toda a segurança do mundo – nas minhas capacidades, naquilo que tinha para dizer. Hoje, depois de tanto ter acontecido, duvido de tudo. Num momento ganho coragem, no momento a seguir sou derrubada pelas consequências dessas tais incontáveis situações. E, mesmo que o odeie admitir, desisto. Neste preciso momento, o esforço que faço para digitar estas singelas linhas é enorme. Por isso, perdoem-me o tom taciturno. Hoje não é um bom dia. Mas já esteve pior, confesso.

“Hoje não é um bom dia.” Quantas vezes já repeti esta frase?… Incontáveis. Todos os dias são uma luta. A tentativa de reencontrar alguma similitude de equilíbrio na minha vida, o batalhar todos os pensamentos de solidão e de rejeição que pontualmente assolam os meus dias, muitas das vezes sem qualquer razão pra isso. Convivo com esta realidade há anos. Mas todo esse esforço é real, diário e, muitas vezes, extenuante.

A saúde mental é, ainda e infelizmente, um tabu. Conheço poucos que gostem de falar nela e menos ainda que admitam que têm algum problema a esse nível. O tema tem, ao menos no sítio onde vivo, pouco acolhimento favorável pelos mais velhos e, entre os mais novos, num tempo em que o que está na moda é ser-se “fixe” e tirar fotografias fantásticas para colocar nas redes sociais, todas elas aparentando uma vida a roçar a perfeição (ainda que essa seja totalmente subjetiva), muito raros são os que admitem algum distúrbio dessa pretensa impecabilidade. As redes sociais e esta quase obrigatoriedade de manter o mito do “fabuloso” vieram exacerbar seriamente as doenças mentais, e a níveis de bastante gravidade.

Muitos me dirão que o esforço de que acima falei é normalíssimo e que toda a gente passa por isso. Que muita gente passa por isso sei eu. Mais me dizem que tenho mais é que levantar a cabeça e andar prá frente – porque é isso que as pessoas fortes fazem. Mas eu sou forte. Nunca disse que não era. E não considero os momentos que compõem a minha luta diária como momentos de fraqueza, de longe. A minha cabeça funciona assim. Degladio-me com ela constantemente porque ela foi desenhada fisiologicamente com esta predisposição para a taciturnidade e a introspeção espoletadas por ansiedade moderada. O meu corpo funciona assim. Não culpo nada nem ninguém por isso, muito menos a mim. Durante algum tempo fiz medicação, receitada por profissional de saúde mental. Confesso que me ajudou. No entanto (e o que vou dizer a seguir pode, de alguma forma, chocar alguns), decidi deixar de tomá-la. Sentia que era um espírito artificial que me movia e que tinha que tentar trabalhar com as minhas forças, eu própria, numa solução para um equilíbrio entre o que a minha cabeça me diz que a minha vida deve ser e aquilo que eu quero que ela realmente seja. Não o recomendo a ninguém, sem o devido acompanhamento. O nível de prejuízo à minha vida “proporcionado” por esta condição não é tão grave que não me pudesse permitir tomar esta decisão. Ninguém é papel químico de outrem e, como tal, não sou, nem pretendo ser, igual a ninguém. Recomendo, sempre, acompanhamento profissional. Já o tive, permitiu-me perceber os meus níveis de ansiedade, que é aquilo de que “sofro” e que afeta imensa, imensa gente. Deles, não sou diferente. Sei o quão importante é esse acompanhamento para um correto diagnóstico de qualquer condição e da sua gravidade que, no meu caso, nem é assim tanta. Não obstante, faz mossa.

Engane-se quem pense que sou contra a administração de medicação. Totalmente errado. Sou de opinião que os medicamentos existem para serem tomados, com conta, peso, medida e o devido acompanhamento profissional. Foi apenas uma escolha que fiz. Não é fácil. A minha cabeça prega-me partidas e qualquer coisinha pode espoletar uma crise de profunda tristeza, negativismo, nervosismo, etc.. Mas já a conheço o suficiente para fazer o devido esforço de modo a divergir a minha opinião e os meus pensamentos para aquilo que realmente devem ser (descobri que ouvir música ajuda :D). Consigo relativizar a maior parte das coisas negativas que acontecem. Umas vezes mais bem sucedida do que outras, mas ao menos tento.

Outro dia, horas antes de viajar, parti um frasco de azeite. Estraguei umas botas que estimo imenso e que me “acompanham” há já muito tempo. Sujei as calças que tinha vestidas com aquela gordura fácil de tirar. Tudo isto depois de, no dia antes, ter perdido o meu Cartão de Cidadão e ter passado imenso tempo na PSP, à noite, a fazer a participação de extravio. Lá veio a minha clássica asserção: “nada comigo é fácil”. Foi uma bengala que encontrei há uns anos quase que para me desculpar da minha própria incapacidade de lidar com as coisas que aconteciam na minha vida. E ela ainda sai de vez em quando, e mais frequentemente do que eu gostaria. Só muito recentemente me predispus a tomar as rédeas da minha própria cabeça, essa Medusa por vezes idiota que gosta tanto de discutir comigo. Aquele momento do frasco de azeite foi, para mim, desolador. Algo tão simples. Que se resolveu mais tarde com Fairy, água quente e um bocado de “graxa”, no caso das botas. Mas quando aconteceu, senti automaticamente que eu, eu própria, era um desastre e que era impossível que algo me corresse bem. Foi preciso algum tempo para encaixar outra vez alguma semelhança de normalidade.

Eu sei que as coisas que me acontecem a mim, acontecem igual ou mil vezes pior, a tantas outras pessoas. Não conseguia relativizá-las e só muito recentemente o comecei a fazer. Creio que algures após o frasco de azeite. Mas não me recrimino por essa epifania tardia. Todos os dias lido com situações complexas que exigem de mim um trabalho contínuo de calma e de muito respirar fundo. Continuam a haver momentos avassaladores, em que a ansiedade é arrebatadora. Muitos os momentos em que não sei o que pensar e outros em que penso demais. Mas levanto-me. É um trabalho que não pára. E eu aceito que, primeiro que qualquer outra pessoa, tenho que me predispor a desenvolvê-lo.

Esqueçam todos os clichés. A saúde mental não é uma brincadeira e é preciso abordá-la com seriedade. E sim, “antigamente” havia “disto”. Não, “trabalho pró lombo” não é a cura milagrosa para quem sofre de algum tipo de condição mental. Sim, a família e os amigos são uma parte essencial do trabalho que envolve o tratamento, a reabilitação e desejada cura. Por isso, estendam uma mão, não julguem – nem a si nem a outros – e, às vezes, algo tão simples como um “como estás?” faz toda a diferença. Cada pessoa que conhecemos está a passar por coisas que nem imaginamos. Sejam gentis. Sempre.