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Que aconteceu à América?

A eleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos não configurou nenhuma surpresa, depois de bem analisados todos os dados e condicionantes. Uma eleição polarizada pela influência das redes sociais com a inerente e já comprovada manipulação russa das mesmas, um candidato populista, cujas “tiradas” infantis apelaram a um eleitorado acrítico e pouco escolarizado – encantado com o mito do “sonho americano” que Trump aparentemente personifica – e um sistema eleitoral que permite que quem não tenha, efetivamente, mais votos, chegue à Presidência, tornaram possível essa eleição.

Em dias em que a democracia se encontra ameaçada pelo surgimento de movimentos de extrema-direita um pouco por todo o planeta, Donald Trump emana, sob a capa do republicanismo, um bafo conservador falso, movido por interesses próprios, jogando, para o efeito, as cartas do papão da emigração, da imprensa como inimiga do povo, regurgitando barbaridades numa base quase diária mas que – aí está – agradam à América profunda e aos Estados que, por tradição, votam no GOP.

Na História da América – apenas três presidentes foram alvo de um processo de destituição – Andrew Johnson (por ter removido um Secretário do Governo para suposto proveito próprio), Bill Clinton (por aquela “aventura” na Sala Oval com uma funcionária da Casa Branca) e Donald Trump, por ter tentado pressionar um governo estrangeiro, sob pena de não libertação de fundos financeiros de apoio militar – vulgo “chantagem” – a investigar um seu oponente político de modo a prejudicar o mesmo nas próximas eleições, em seu próprio benefício.

Observando o que se passou em todo o procedimento de impeachment de Donald Trump, é caso para perguntar “que raio aconteceu à América?”. Um processo de impeachment é suposto decorrer nos pressupostos de um verdadeiro julgamento sobre as ações do Presidente dos EUA. Neste caso, após terem sido votados e aprovados dois artigos de impeachment na Câmara dos Representantes por uma maioria democrata, e enviados os mesmos para o Senado, onde já se sabia que a maioria republicana não os aprovaria, o impensável tomou lugar. Mesmo com esse pressuposto, foi barrada qualquer apresentação de prova ou de quaisquer testemunhas. O cúmulo inadmissível da falta da Justiça. De todo o processo não resultou nada de palpável. Um impeachment é uma nódoa que nunca sai do curriculum de um Presidente. No entanto, a não haver destituição do cargo, não tem quaisquer efeitos práticos. Trump continua lá, sentadinho na Sala Oval, a brincar aos presidentes.

A maioria republicana vergou-se completamente à vontade de Trump, declarando de antemão que não pretendiam ser nem justos, nem imparciais. A terra da liberdade, da justiça, do sonho americano onde todos têm uma oportunidade, transformou-se na terra onde testemunhas ficam sem voz e onde a parcialidade partidária cega sustenta a impunidade de um Presidente cuja profunda inabilidade política coloca em causa toda a Constituição americana e os princípios mais basilares que construíram a América que conhecíamos.

Verdade seja dita, os Estados Unidos são um gigantesco mosaico de complexidades que testam, todos os dias, os seus princípios constitucionais. No entanto, no momento em que a sua maior figura, um Presidente eleito, com o correspondente poder executivo, e um Senado, detentor de poder legislativo, prestam o pior serviço ao seu país, agindo abertamente e sem pudor como se princípios constitucionais basilares, especialmente o de checks and balances, não contassem rigorosamente para nada, enviam uma clara mensagem de totalitarismo, de descarada irresponsabilidade.

Com a recente interferência de Trump no ramo judiciário, ao conseguir que o Departamento de Estado reduzisse a recomendação de sentença de um seu associado, Roger Stone, podemos com toda a certeza concluir que Trump, hoje, representa a maior ameaça à democracia americana, tão ou mais do que no dia em que foi eleito.

E em que é que isso nos diz respeito, perguntar-se-á. Na hora em que um líder de uma potência mundial tem poder ilimitado na mão, com uma fixação quase doentia por uma política protecionista baseada em taxas aduaneiras que afetam as economias de quase todos os países do mundo –e a nós, Açores, também -, estamos em muito maus lençóis. Quando, mais ainda, estamos perante um presidente cujo comportamento infantil e completamente alienado da gravidade dos seus atos e em quem ninguém quer ter mão, tem o poder de carregar num botão e desencadear uma guerra mundial num mero estalar de dedos, talvez aí nos comecemos a preocupar seriamente com o que se passa no outro lado do “lago”.

Trump representa tudo o que a América tem de podre. E, muito provavelmente, será por isso que será novamente eleito – porque os populismos são muito lineares de ouvir e o facilitismo com que os menos informados encaram a política hoje em dia facilita a “subida” a lugares de decisão de Trumps e, por aqui, Venturas. Os venenos adocicados com que melam os ouvidos dos menos informados (ou dos intelectualmente mais preguiçosos) são os mecanismos que levam a que se abdiquem de liberdades de forma pacífica. Foi assim que Hitler chegou ao poder. Afinal de contas, parece que a História não nos ensinou rigorosamente nada.

Cada pessoa que conhecemos está a passar por coisas que nem imaginamos. Sejam gentis. Sempre.

Há dias em que me sento em frente ao ecrã, ponho as mãos no teclado e nada sai. Um completo vácuo. Não é que não tenha ideias ou que seja o eterno cliché da falta de inspiração. É mesmo uma força avassaladora que me pressiona o peito e a cabeça. É um turbilhão de mil pensamentos e reações no qual não tenho mão. Penso, depois, se devo sequer escrever. Há muito, muito tempo, eu tinha toda a segurança do mundo – nas minhas capacidades, naquilo que tinha para dizer. Hoje, depois de tanto ter acontecido, duvido de tudo. Num momento ganho coragem, no momento a seguir sou derrubada pelas consequências dessas tais incontáveis situações. E, mesmo que o odeie admitir, desisto. Neste preciso momento, o esforço que faço para digitar estas singelas linhas é enorme. Por isso, perdoem-me o tom taciturno. Hoje não é um bom dia. Mas já esteve pior, confesso.

“Hoje não é um bom dia.” Quantas vezes já repeti esta frase?… Incontáveis. Todos os dias são uma luta. O levantar da cama, o ir caminhar às 06h30 da manhã, o ir para o ginásio na tentativa de reencontrar alguma similitude de equilíbrio na minha vida, o batalhar todos os pensamentos de solidão e de rejeição que pontualmente assolam os meus dias, muitas das vezes sem qualquer razão pra isso. Convivo com esta realidade há anos (não com o ginásio, que esse só começou não faz ainda 15 dias, vá lá :D). Mas todo esse esforço é real, diário e, muitas vezes, extenuante.

A saúde mental é, ainda e infelizmente, um tabu. Conheço poucos que gostem de falar nela e menos ainda que admitam que têm algum problema a esse nível. O tema tem, ao menos no sítio onde vivo, pouco acolhimento favorável pelos mais velhos e, entre os mais novos, num tempo em que o que está na moda é ser-se “fixe” e tirar fotografias fantásticas para colocar nas redes sociais, todas elas aparentando uma vida a roçar a perfeição (ainda que essa seja totalmente subjetiva), muito raros são os que admitem algum distúrbio dessa pretensa impecabilidade. As redes sociais e esta quase obrigatoriedade de manter o mito do “fabuloso” vieram exacerbar seriamente as doenças mentais, e a níveis de bastante gravidade.

Muitos me dirão que o esforço de que acima falei é normalíssimo e que toda a gente passa por isso. Que muita gente passa por isso sei eu. Mais me dizem que tenho mais é que levantar a cabeça e andar prá frente – porque é isso que as pessoas fortes fazem. Mas eu sou forte. Nunca disse que não era. E não considero os momentos que compõem a minha luta diária como momentos de fraqueza, de longe. A minha cabeça funciona assim. Degladio-me com ela constantemente porque ela foi desenhada fisiologicamente com esta predisposição para a taciturnidade e a introspeção despoletadas por ansiedade moderada. O meu corpo funciona assim. Não culpo nada nem ninguém por isso, muito menos a mim. Durante algum tempo fiz medicação, receitada por profissional de saúde mental. Confesso que me ajudou. No entanto (e o que vou dizer a seguir pode, de alguma forma, chocar alguns), decidi deixar de tomá-la. Sentia que era um espírito artificial que me movia e que tinha que tentar trabalhar com as minhas forças, eu própria, numa solução para um equilíbrio entre o que a minha cabeça me diz que a minha vida deve ser e aquilo que eu quero que ela realmente seja. Não o recomendo a ninguém, sem o devido acompanhamento. O nível de prejuízo à minha vida “proporcionado” por esta condição não é tão grave que não me pudesse permitir tomar esta decisão. Ninguém é papel químico de outrem e, como tal, não sou, nem pretendo ser, igual a ninguém. Recomendo, sempre, acompanhamento profissional. Já o tive, permitiu-me perceber os meus níveis de ansiedade, que é aquilo de que “sofro” e que afeta imensa, imensa gente. Deles, não sou diferente. Sei o quão importante é esse acompanhamento para um correto diagnóstico de qualquer condição e da sua gravidade que, no meu caso, nem é assim tanta. Não obstante, faz mossa.

Engane-se quem pense que sou contra a administração de medicação. Totalmente errado. Sou de opinião que os medicamentos existem para serem tomados, com conta, peso, medida e o devido acompanhamento profissional. Foi apenas uma escolha que fiz. Não é fácil. A minha cabeça prega-me partidas e qualquer coisinha pode despoletar uma crise de profunda tristeza, negativismo, nervosismo, etc.. Mas já a conheço o suficiente para fazer o devido esforço de modo a divergir a minha opinião e os meus pensamentos para aquilo que realmente devem ser (descobri que ouvir música ajuda :D). Consigo relativizar a maior parte das coisas negativas que acontecem. Umas vezes mais bem sucedida do que outras, mas ao menos tento.

Outro dia, horas antes de viajar, parti um frasco de azeite. Estraguei umas botas que estimo imenso e que me “acompanham” há já muito tempo. Sujei as calças que tinha vestidas com aquela gordura fácil de tirar. Tudo isto depois de, no dia antes, ter perdido o meu Cartão de Cidadão e ter passado imenso tempo na PSP, à noite, a fazer a participação de extravio. Lá veio a minha clássica asserção: “nada comigo é fácil”. Foi uma bengala que encontrei há uns anos quase que para me desculpar da minha própria incapacidade de lidar com as coisas que aconteciam na minha vida. E ela ainda sai de vez em quando, e mais frequentemente do que eu gostaria. Só muito recentemente me predispus a tomar as rédeas da minha própria cabeça, essa Medusa por vezes idiota que gosta tanto de discutir comigo. Aquele momento do frasco de azeite foi, para mim, desolador. Algo tão simples. Que se resolveu mais tarde com Fairy, água quente e um bocado de “graxa”, no caso das botas. Mas quando aconteceu, senti automaticamente que eu, eu própria, era um desastre e que era impossível que algo me corresse bem. Foi preciso algum tempo para encaixar outra vez alguma semelhança de normalidade.

Eu sei que as coisas que me acontecem a mim, acontecem igual ou mil vezes pior, a tantas outras pessoas. Não conseguia relativizá-las e só muito recentemente o comecei a fazer. Creio que algures após o frasco de azeite. Mas não me recrimino por essa epifania tardia. Todos os dias lido com situações complexas que exigem de mim um trabalho contínuo de calma e de muito respirar fundo. Continuam a haver momentos avassaladores, em que a ansiedade é arrebatadora. Muitos os momentos em que não sei o que pensar e outros em que penso demais. Mas levanto-me. É um trabalho que não pára. E eu aceito que, primeiro que qualquer outra pessoa, tenho que me predispor a desenvolvê-lo.

Esqueçam todos os clichés. A saúde mental não é uma brincadeira e é preciso abordá-la com seriedade. E sim, “antigamente” havia “disto”. Não, “trabalho pró lombo” não é a cura milagrosa para quem sofre de algum tipo de condição mental. Sim, a família e os amigos são uma parte essencial do trabalho que envolve o tratamento, a reabilitação e desejada cura. Por isso, estendam uma mão, não julguem – nem a si nem a outros – e, às vezes, algo tão simples como um “como estás?” faz toda a diferença. Cada pessoa que conhecemos está a passar por coisas que nem imaginamos. Sejam gentis. Sempre.